
A genealogia sempre foi, para mim, muito mais do que uma busca por nomes, datas e documentos antigos. Ela é uma forma de compreender a história das famílias, preservar a memória de nossos antepassados e reconstruir trajetórias que, muitas vezes, pareciam definitivamente perdidas.
Há alguns anos venho me dedicando ao estudo da história da minha família e também de outras famílias brasileiras. Esse trabalho envolve a pesquisa em registros paroquiais, inventários, processos judiciais, jornais antigos, documentos cartoriais, censos e diversas outras fontes históricas. Cada documento encontrado representa uma nova possibilidade de compreender quem foram aqueles que vieram antes de nós e como suas vidas contribuíram para a formação da sociedade brasileira.
Em muitas dessas pesquisas, especialmente quando se trata de famílias com ascendência africana, torna-se inevitável encontrar os efeitos do tráfico transatlântico de africanos escravizados e, posteriormente, do tráfico interno de pessoas escravizadas dentro do próprio Brasil. Durante mais de três séculos, milhões de pessoas foram retiradas de suas terras de origem e transportadas à força para as Américas. Já em território brasileiro, inúmeras famílias continuaram sendo separadas por vendas, heranças e deslocamentos entre fazendas, vilas e províncias, rompendo vínculos familiares e tornando extremamente difícil, para seus descendentes, conhecer suas próprias origens.
Essa história faz parte da formação do Brasil. Estima-se que mais de cem milhões de brasileiros possuam algum grau de ascendência africana, ainda que muitos desconheçam essa parte de sua história familiar em razão das rupturas provocadas pela escravidão.
Foi justamente durante uma pesquisa da minha linha materna que encontrei uma mulher escravizada chamada Justina. Seu nome apareceu em antigos registros documentais e despertou uma série de questionamentos. Quem era Justina? Teria ela atravessado o Oceano Atlântico no contexto do tráfico transatlântico de africanos escravizados? Ou já teria nascido no Brasil, descendente de africanos escravizados trazidos em gerações anteriores? Onde viveu? Como era sua família? Quantos descendentes deixou?
Embora algumas dessas perguntas talvez jamais possam ser respondidas com absoluta certeza, os documentos preservados permitiram reconstruir parte de sua trajetória e acompanhar documentalmente sua descendência ao longo de mais de um século e meio, estabelecendo um vínculo histórico entre Justina e as gerações que vieram depois dela.
Movido pelo desejo de preservar essa memória e compreender melhor as origens da minha família, desenvolvi um estudo genealógico reunindo os documentos que comprovam essa linha de descendência. Esse trabalho foi apresentado ao Ministério da Justiça e da Legislação da República do Benim, no âmbito da Lei nº 2024-31, de 2 de setembro de 2024, alterada e complementada pela Lei nº 2025-11, de 1º de julho de 2025, que reconhece a nacionalidade beninense aos afrodescendentes.
Após a análise do processo, a Autoridade de Emissão dos Atos Relativos à Nacionalidade (ADAN) reconheceu a consistência da documentação apresentada e emitiu em meu favor um Atestado de Elegibilidade à Nacionalidade Beninense.
Esse documento possui validade de três anos e autoriza minha entrada e permanência no território da República do Benim para a conclusão do procedimento de reconhecimento da nacionalidade.
Muitas pessoas se referem informalmente a esse documento como uma “nacionalidade provisória”. Entretanto, essa não é sua denominação oficial. O Atestado de Elegibilidade representa o reconhecimento, pelo Estado beninense, de que o requerente preenche os requisitos legais para prosseguir à etapa final do processo.
O próximo passo consiste em comparecer pessoalmente perante as autoridades competentes em Cotonou, onde será realizada a cerimônia oficial prevista pela legislação beninense para a formalização definitiva da nacionalidade. Após essa etapa, serão emitidos os documentos nacionais correspondentes, concluindo o processo de reconhecimento.
Receber esse reconhecimento representa muito mais do que adquirir uma nova nacionalidade. Significa ver reconhecido o resultado de um trabalho de pesquisa que buscou reconstruir uma história interrompida há muitas gerações. Significa demonstrar que a genealogia pode preservar memórias, recuperar identidades e aproximar descendentes de suas origens históricas e culturais.
Se esta história possui uma protagonista, não sou eu. É Justina.
E, ao lado dela, milhões de homens, mulheres e crianças que foram arrancados de suas terras pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas ou que já nasceram no Brasil sob a condição da escravidão, herdando uma realidade imposta às gerações anteriores. Muitos jamais puderam escolher onde viver, preservar sua família, falar sua língua de origem ou transmitir livremente sua cultura. Ainda assim, deixaram um legado imensurável que ajudou a construir a história, a economia, a cultura e a identidade do Brasil.
Minha pesquisa não altera o passado, nem pretende apagar o sofrimento que marcou a vida dessas pessoas. Mas ela demonstra que a memória pode sobreviver ao tempo e que a genealogia possui um extraordinário poder de reconectar famílias às suas próprias histórias.
Justina talvez jamais pudesse imaginar que, mais de um século e meio depois, seu nome voltaria a ser pronunciado, estudado e lembrado. Tampouco poderia imaginar que sua existência, preservada em antigos registros históricos, permitiria a um de seus descendentes estabelecer oficialmente uma reconexão com o continente africano.
Mais do que um reconhecimento jurídico concedido pelo Estado do Benim, essa conquista representa uma homenagem à memória de Justina e de tantos outros homens e mulheres cuja história foi silenciada pela escravidão, mas nunca completamente apagada. A genealogia nos ensina que, enquanto houver quem pesquise, preserve documentos e conte essas histórias, a memória continuará viva.
Guethner Gadelha Wirtzbiki































































































































































































































